06 outubro 2009

A morte da Voz da América Latina: Mercedes Sosa



Música e Resistência

Entre os anos de 1960 e 1985, muitos países latino-americanos viveram sob ditaduras militares cujo método de garantir a ordem era calar a população. Para isso, não havia limites. Na Guatemala, estima-se que 45 mil pessoas tenham desaparecido debaixo dos regimes de repressão; Na Argentina, cerca de 30 mil foram seqüestradas; Em 11 de setembro de 1973, Augusto Pinochet tomou o poder no Chile, e aproximadamente 31 mil pessoas desapareceram nos anos seguintes. Outros países também sofreram revezes em suas histórias através da tomada de poder e posterior implementação de regimes ditatoriais. Na República Dominicana, em1966, Joaquín Balaguer tomou o poder fraudando eleições e reprimindo severamente opositores políticos; No Haiti, em 1957, François “Papa Doc” Duvalier foi eleito presidente mas passou a governar numa ditadura sangrenta e baseada na tortura e no terror. Foi sucedido por seu filho, “Baby Doc”, igualmente perverso; No Uruguai, em 1973, foi o grupo guerrilheiro articulado pelos Tupamaros que serviu de base para a implantação da ditadura militar; No Paraguai, a ditadura militar do General Alfredo Stroessner, “El Rubio”, foi instaurada em 1954 e só começou a enfraquecer em 1989. Desde janeiro de 1959, Fidel Castro governa Cuba sob a marca do medo e do silêncio. No Brasil, em 1964, teve início o período sombrio da história com a Ditadura Militar, só encerrado em 1982, com a realização de eleições indiretas, cujo candidato mais forte era um civil.

A arte toda fala da realidade de um país, mas é a música a ser reproduzida na voz das pessoas nas ruas, no canto do rádio que invade a atmosfera e os ouvidos do povo, liberando gritos por justiça. Em cada um dos países citados, sangue de músicos foi derramado para que não fossem eles os profetas da liberdade que seus povos ansiavam.

Cada um dos países teve seu mártir vindo da música. Por exemplo,Victor Jará, assassinado no Chile; Daniel Viglietti, perseguido no Uruguai; Glória Estefan, que abandonou Cuba para não ser morta; Geraldo Vandré, torturado no Brasil.

Mercedes Sosa foi esta voz maior, este tributo à liberdade cantado a plenos pulmões. Quem dera cada músico olhasse para estes mártires e tornasse um bem maior para seus povos, um caminho que os levassem à dignidade e à cidadania.

Mercedes Sosa morreu no domingo, dia 04 de outubro. Desde 18 de setembro, a saúde de Mercedes deteriorou-se. Internada na UTI de um hospital em Buenos Aires, com problemas renais progressivos, complicações cardiorrespiratórias e respirando com a ajuda de aparelhos, Mercedes recebeu a extrema unção na sexta-feira, indicando que seu quadro era irreversível.

Fábio Matus, único filho de Mercedes, disse à imprensa argentina que sua mãe viveu uma vida plena e fez praticamente tudo o que quis.

Mercedes é uma das intérpretes mais conhecidas da música latino-americana e a mais famosa artista Argentina, citada ao lado de nomes como Carlos Gardel e Astor Piazzolla. Mercedes Sosa foi um "símbolo de liberdade". Ela inspirou combatentes dos regimes militares por toda a América Latina.
“A vida me escolheu para cantar”, declarou poucos meses atrás.

Mercedes Sosa foi indicada para 3 prêmios Grammy’s 2009, incluindo o de melhor álbum.
Morre alguém que fez muito mais do que arte. Mercedes guerreou por seu povo. A voz da América Latina se calou para sempre.

História


Haydée Mercedes Sosa nasceu em San Miguel de Tucumán, Argentina, em 9 de julho de 1935. O lugarejo era pobre e sua família trabalhava na lavoura. Desta vida humilde veio o apego às expressões artísticas populares. Adolescente, gostava das danças folclóricas, e até de ensiná-las, além de cantar.

Em outubro de 1950, arriscou-se em um concurso organizado pela rádio LV 12, da cidade onde vivia. Mercedes contava que só se inscreveu por causa do incentivo e insistência de um grupo de amigas. A vitória no concurso levou-a ao primeiro contrato... De 2 meses de duração. Mas o timbre grave de sua voz e seu estilo folclórico atraiu a atenção de muita gente.

Mercedes Sosa ficou conhecida por uma militância política corajosa.

Com 25 anos, em fevereiro de 1963, comprometeu sua voz e sua carreira com a música de raiz argentina, integrando-se ao movimento Nuevo Cancionero, fundado pelos artistas Manuel Orçar Matus (marido de Mercedes); Armando Tejada Gómez (autor de "Canción con todos", considerado um hino latino americano. Em 1952, Gómez sofreu banimento da profissão de locutor de rádio na Argentina por se negar a usar luto pela morte de Eva Perón); e Tito Francia. O movimento nasceu na cidade de Mendonza, e suas raízes fincavam-se na cultura afro, cubana, andina e espanhola. O movimento também propunha que a música retratasse a luta diária do povo argentino, suas alegrias, suas tristezas; seus fundadores rechaçavam o que chamavam de imperialismo norte-americano e a desigualdade social. Este mesmo movimento conquistou vozes como as de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque.

Em 1965, Mercedes passou a ser chamada de La Negra: por causa dos cabelos negros, lisos e sempre longos, sua pele escura e sua ascendência nativa. Mercedes nunca se opôs ao apelido!

Em 1967, sua voz, seu jeito de cantar e sua personalidade ganharam a Europa e os Estados Unidos, em turnês que percorreram o solo anglo saxão.
Durante alguns anos, Mercedes Sosa e o marido cantaram em universidades argentinas promovendo a cultura popular.

A personalidade e atitude de Mercedes surpreendiam o público. Seu marido lançou um selo independente para abrigar os álbuns que eles lançavam. Mas, apenas em 1965, durante o Festival Nacional de Folclore de Cosquín, Mercedes foi apresentada ao grande público”. Em abril de 1967, Mercedes gravou “Mujeres Argentinas”, trabalho que foi concretizado somente em 1969, quando a Argentina entrava no seu período de ditadura. Muitos argentinos foram presos, e algumas músicas de Mercedes Sosa sofreram censura na Rádio Nacional, emissora estatal Argentina.

O ano de 1973, foi um ano de lutas pela volta da democracia na Argentina, e um tempo de muita violência. Mercedes continuava seu trabalho militante, cantando a realidade que o país vivia.

Em 1976, Mercedes Sosa lançou um álbum em que cantava a poesia de artistas como Pablo Neruda, Víctor Jará, Alicia Maguiña ,Ignacio Villa, e outros.

Em 1977 o clima político e social na Argentina era extremamente tenso. Em 1979, a violência sacudia a sociedade argentina, e Mercedes continuava a cantar, apesar da morte de segundo marido. Havia um clima hostil entre ela e o governo argentino, que queria obrigá-la a exilar-se. Durante um show em La Plata, cidade universitária controlada pela ditadura, a polícia formou um cerco em torno da casa de espetáculo onde Mercedes se apresentava, deteve La Negra e todo o público que ali a prestigiava.

Mercedes foi liberada depois de 18 horas por causa da pressão dos veículos e organismos internacionais, mas resolveu exilar-se, embarcando para Paris com uma pequena bagagem e uma bolsa de mão. Em 1980, mudou-se para Madri.

Teoricamente, Mercedes Sosa podia entra e sair da Argentina livremente, mas não tinha autorização para cantar. Ela não poderia viver assim. Num país onde a vida humana não tinha nenhum valor, e milhares de pessoas desapareciam sob a escuridão de um regime usurpador, a voz de Mercedes seria um grito de liberdade. Mercedes sabia o que ocorria com os artistas que tinham permanecido na Argentina durante aqueles anos.

Mercedes só teve permissão para apresentar-se na Argentina em 1982, poucos meses antes de ser deflagrada a Guerra das Malvinas. Sua reestréia em Buenos Aires ocorreu no Teatro Ópera, em uma temporada muito comemorada. Mas foi só uma passagem. Mercedes só receberia autorização para voltar para casa em 1984, com o fim da ditadura. No show de sua volta, uma multidão a assistiu em Buenos Aires. O show teve a participação de Milton Nascimento, que também a incentivou a firmar carreira no Brasil.

Mercedes cantou com artistas do mundo todo, como Sting, Andrea Bocelli, Luciano Pavarotti, Nana Mouskouri, Joan Baez, Silvio Rodríguez e Pablo Milanés, e muitos outros.

Homenagens e Prêmios

Mercedes recebeu muitas homenagens ao longo da vida. Em 1989, ganhou a medalha da Ordem do Comendador das Artes e Letras do governo da França e , em 1992, foi declarada cidadã ilustre de Buenos Aires; em 2000, recebeu o Grammy Latino de melhor intérprete internacional; Está indicada para 3 Gramy’s 2009, incluindo melhor álbum.

A carreira de Mercedes pelo Brasil teve o apoio de Milton Nascimento, com quem gravou a faixa “Volvera los 17” do álbum dele Geraes – 1976. Mercedes Sosa fez parceria vocal com Beth, Carvalho (So le piedo a Dios. Ela cantando em espanhol e Beth em português!), Fagner (Años – 1891), Caetano Veloso, Chico Buarque, Daniela Mercury... A lista é longa!



texto: Chris Gialucca

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